Minha história de amor com as coisas esquecidas

Sabe, eu tenho o coração mole…

É verdade. Desde criança, sempre queria ajudar todos, queria mudar o rumo das coisas que eram injustas, não conseguia superar algo bonito (pra mim) se perdendo.

As coisas pra mim sempre tiveram um valor muito grande, quase tudo. Uma mania estranha de dar sentimentos a coisas inanimadas. A dificuldade de se desfazer de uma calça que já não servia mais há muito tempo. A dificuldade de jogar fora a canetinha que não tinha mais cor. 


Eu pensava, coitada da calça, ela viveu aventuras tão maravilhosas comigo, vai se sentir esquecida e abandonada se eu não usar mais ela. Então eu saia em pleno inverno com as canelas de fora. Coitada da canetinha, ela não tem mais cor, deve estar se sentindo arrasada porque a missão dela de vida era colorir desenhos. Nessa lógica eu não queria me desfazer de nada e assim fui acumulando cada vez mais “cacarecos”.


Foi assim que começou a saga de perder as coisas pelo caminho, em mudanças, na casa de amigos e nem perceber que tinha perdido porque eu tinha tantas coisas. E eu não conseguia dar atenção a todas elas. Remexendo em caixas esquecidas, volta e meia eu encontrava algo especial que não via há meses ou anos. O coração ficava quentinho de lembrar daquele velho amigo, mas logo depois vinha o questionamento:


“Faz sentido isso estar comigo ainda? Isso não é egoísmo?”


Eu gosto de ver coisas sendo usadas. Quando trabalhei vendendo brincos, ficava pensando no trajeto que aquele acessório ia percorrer. “Será que vai ficar muito tempo com essa pessoa? Será que ela vai perder? Imagina se ela dá pra outra pessoa e esse brinco vai parar em outro estado?”. Essas possibilidades infinitas da vida útil das coisas sempre me fascinou. E quando eu via essas pessoas usando seus acessórios eu sorria de orelha a orelha:


"Tu está usando? :D Meu Deus, eu tô tão feliz!”. Aposto que assustei várias pessoas com a minha empolgação repentina. 


Então voltando para as minhas caixas de coisas esquecidas, eu não conseguia suportar o fato de não ter como usar tudo o que eu tinha. De vez em quando eu conseguia reutilizar algo, transformando uma calça manchada em uma saia, uma embalagem de presente em um quadro. Tantos projetos de upcycling e ainda sim não era o suficiente porque cada vez mais surgiam coisas novas na minha vida, que ocupavam mais e mais espaço no meu guarda-roupas e no meu coração também. 


Logo me peguei pensando sobre todas as coisas que existiam no mundo, esquecidas e inutilizadas. Comecei a pensar sobre todos os recursos disponíveis, clamando para serem utilizados. Essas coisas que muitas pessoas viam como lixo eram as mesmas coisas inanimadas que eu me apegava quando criança. Eu sei que as coisas não têm sentimentos nem pensamentos. Mas elas tinham algo e isso eu sempre soube. Isso que eu chamo hoje de energia, cultivada pela memória e pelo contato que as pessoas tiveram com o objeto. Assim como Einstein disse: “Tudo é energia e isso é tudo o que há”. 




Assisti em um desenho uma vez que as fadas nascem de objetos, plantas, pedras, se observadas com sentimento pelo olhar de uma criança. Em um momento aquilo é só uma coisa e em instantes cria vida e magia, na frente dos olhos daqueles que têm sinceridade e pureza no coração. Aquela história me cativou completamente. Era como as histórias de projetos de artesanato que vivi a vida inteira. Em um momento as coisas são objetos esquecidos mas se você observar bem com os olhos do coração, aquilo pode tomar outra forma, criar vida. 


Acho que depois de muito tempo consegui entender o porquê do meu coração mole com as coisas que eu encontrava pelo caminho. Nunca consegui ver as calças que não cabiam mais apenas como calças e sim como possibilidades de uma forma de vida nova. “Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Um dia eu percebi que alguém precisava lutar com afinco por todas essas possibilidades que tantos não enxergavam. Essa foi a minha história de amor com as coisas esquecidas. 


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